Mohamed Fellag é um actor/comediante argelino nascido em Tizi-Ouzou, no coração da Kabylia e verdadeiro coração da Argélia e muito bem sucedido em terras francesas. Sempre crítico em relação ao seu país e sobretudo aos costumes que os muçulmanos introduziram no seu país.
É um fenómeno pouco corrente por estas paragens mas hoje está a acontecer: chove em Biskra! Chuva “molha-tolos” como se diz no Norte de Portugal mas ainda assim, chuva. E com a chuva veio o caos rodoviário nesta cidade de cerca de 100.000 habitantes! Faz lembrar o Porto! Demorar uma hora para fazer 2/3 quilómetros dentro de uma cidade não é daquelas coisas de que eu mais sinta saudades na Invicta, mas ainda assim foi uma sensação familiar e que pouco me apoquentou.
De recordar que fez ontem um mês que estou na Argélia. Dia 13 de Janeiro aterrava eu em Argel sem grandes expectativas sobre o que iria encontrar. Afinal a passagem por Angola já me havia preparado para o pior!
As primeiras impressões foram boas! A Argel que eu conheci é uma cidade mediterrânea como qualquer outra na costa de Itália, França ou Grécia! O branco é a cor predominante e a construção da cidade numa colina traz-lhe um encanto especial. O trânsito caótico não dá para afligir e as barreiras policias e abertura de malas cria mais uma sensação de segurança do que desconforto. A juntar a isto a vista do hotel El Aurassi sobre o porto é fenomenal (em contraponto ao serviço e até à qualidade dos quartos).
Dia 15 de Janeiro aterrei em Biskra! O aeroporto militar que 2 dias por semana serve os interesses civis trasmitiu o que é estar verdadeiramente no interior de África (neste caso numa zona mais desértica): pequeno, muito controlo policial e sem nada à volta! Do aeroporto ao hotel são uns 5 minutos de paisagem árida que se transforma em palmeirais à entrada da cidade. Ao longe as montanhas, as Ziban que dão o nome ao hotel.
O Hotel des Ziban é um hotel de 3 estrelas com um espaço exterior agradável que não enquadra propriamente na qualidade dos quartos, do serviço ou das refeições. Seja como for, após uma pequena viagem a Argel, tive oportunidade de me mudar para um outro quarto que me parece bem mais acolhedo, limpo e arejado!
Esta cidade não esconde a sua influência islâmica. Várias mesquitas espalhadas pela cidade chamam aos autifalantes cinco vezes por dia, os fiéis do Islão e não são raras as vezes que observamos os trabalhadores pararem, buscarem o seu tapete e durante uns minutos se voltarem para Meca em oração. As mulheres andam maioritariamente com o lenço na cabeça, o foulard, para esconderem o cabelo e algumas também com um outro que lhes tapa a cara excepto os olhos.
No entanto, as gerações mais novas apesar de continuarem a usar o foulard, também usam calças de ganga de marca, saias justas, óculos de sol, telemóvel ou botas altas e falam inglês (ou tentam, pelo menos)! Enfim, há que manter a obediência ao Islão mas em qualquer ponto de fuga a grande maioria mostra-se ocidentalizada!
Relativamente ao meu contacto com as pessoas e instituições, tenho encontrado grandes dificuldades para fazer avançar o meu trabalho! A Argélia é um poço de burocracia e um papel deve ser entregue em 387.000 instituições antes de ser aprovado. Noto também alguma relutância em ajudar o estrangeiro em algumas instituições! Será desconfiança nas nossas intenções? Ninguém tenta esconder que estamos cá para ganhar dinheiro, mas no processo podemos ajudar muitas pessoas (financeiramente e em termos de formação) e dinamizar a economia local, mas essa mensagem torna-se difícil de passar quando do outro lado temos interlocutores que buscam o seu bem pessoal e não o da comunidade. Há excepções e ainda bem.
Quanto ao cidadão comum da rua e das empresas com quem tenho tido contacto só posso dizer bem. Todos são simpáticos e na rua vive-se um verdadeiro sentimento de comunidade tão comum em aldeias de Portugal. Toda a gente se cumprimenta, toda a gente deseja um bom dia! E todos se sentem seguros na rua seja de dia, seja de noite e isso é muito importante quando estamos numa situação destas.
Estas são algumas das impressões da minha vida por cá! Para breve há mais!
De momento, e como hoje é dia 14 de Fevereiro (embora aqui nem se note!), aqui fica uma das mais belas músicas portuguesas que também a mim me marcou:
Não sei bem quantas pessoas pensaram que Chris Cornell se aguentaria sem os Soundgarden, mas não terão sido assim tantas. No entanto, ele aí anda para as curvas especialmente em nome próprio.
Confesso que dos seus projectos, os Audioslave não é claramente o meu favorito, nem sequer vejo grande propósito na sua participação no mesmo a não ser manter a sua ligação a um rock mais pesado, mais sujo. Para uma pessoa com um ego do tamanho do mundo a edição em nome próprio é a melhor solução e tem permitido construir algumas belas canções que o levou mesmo a um patamar elevadíssimo que é escrever a música de abertura do último 007.
Do primeiro avanço a solo (Euphoria Mourning) fica este Can’t Change Me, tão significativo para mim na altura como agora. Existem pessoas que não foram feitas para mudar de direcção ao sabor do vento…
Só por estes dias soube que tinha falecido o primeiro homem (pelo menos conhecido) a subir ao topo do mundo, o Evereste.
Sir Edmund Hillary atingiu algo que se pensava inatingível para qualquer ser humano, mas muitos o seguiram e muitos morreram a tentar.
Não escondo o fascínio por esta proeza e sobretudo pela época. Afinal, o sentimento de “dar novos mundos ao mundo”, de explorar, é bem português e eu tento personalizá-lo o mais possível.
Não escondo sobretudo o meu fascínio pelos sherpas. Aqueles cujos nomes raramente são conhecidos (excepção do sherpa do próprio Hillary, Tenzing Norgay). Homens de grande resistência e determinação carregam nos seus ombros as esperanças de tantos estrangeiros que chegam àquelas paragens. Homens serventes mas que são grandes! Afinal com quem eu acabo por me identificar muito mais do que com aqueles que procuram a glória. Afinal de que serve o reconhecimento dos outros se estamos constantemente insatisfeitos connosco?!?!?